quarta-feira, 15 de julho de 2015
Aguado
Mexeu o café com o cabo da colher como de costume, e bebeu todo de uma vez, olhando para o fundo da xícara cheio de açúcar com desgosto e ânsia de vômito. Estava fraco e numa mistura angustiante de quente e frio. Saltou da cadeira, correndo pra pia e cuspindo tudo que tinha na boca. Não parecia com a semente de qualidade que havia colhido pela manhã, da própria plantação. Tinha sido diluído e envelhecido, ficando aguado, morno e extremamente desagradável, como são os homens que Deus disse que vomitaria de sua boca. Desfeitos em sua própria soberba e pecados, como o café estava na água. Grãos e homens, separados desde antes do plantio, mas estragados em algum momento do processo de preparação. Felizmente havia solução. Moeu o grão mais forte que tinha, como Jesus foi moído pelos pecados, e adicionou na mistura sobre o fogo, recuperando o que foi perdido. Aspirou o perfume do produto final, sorrindo triunfante. O sabor podia ser comum, mas o cheiro era com certeza do melhor café.
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