segunda-feira, 13 de julho de 2015
Pigmentação
Olhou para as folhas secas no chão, pensando com os botões do seu casaco novo se elas, em essência, eram da cor que tinham agora ou se sua verdadeira pigmentação era verde como estavam aquelas na árvore. Pensou em como mudavam antes mesmo de cair, como se do nada e por nada a árvore as rejeitasse. Àquela altura já havia se apegado as folhas no chão, por que era de seu costume se apegar a tudo mesmo. Não era justo que depois de suprir a árvore até dizer basta elas fossem simplesmente descartadas, jogadas fora. Pegou uma das secas na mão e riu, percebendo como pensava bobagens. Não fazia sentido tomar as dores de uma folha. Além do mais, se a árvore é que produzia as folhas, era claro que a mesma sabia melhor do que ninguém o que fazer com o que era dela. Se a árvore podia suprir-se na hora mais oportuna, não era ela que precisava das folhas, pelo contrário: Só podiam viver aquelas ligadas a árvore. Já divertindo-se com a lógica que tudo aquilo detinha, concluiu que as folhas, essencialmente, eram como as que estavam no chão. Secas, mortas, inúteis, nada sem a árvore. Mesmo as verdes haveriam de cair, escravas da natureza, e jamais voltariam a viver. Imaginou as folhas ressuscitando e voltando a arvore e lembrou do que ouviu na igreja: Só Deus pode ressuscitar. E se Deus fosse a árvore? E se as folhas fossem homens?
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