quinta-feira, 30 de julho de 2015
Tisnar
Passou o carvão no papel, tisnando a imagem e adicionando um sombreado só seu à face do desenho. Apreciou a obra concluída e revelou para a dona, que gostou muito. Enquanto a senhora preparava-se pra pagar o preço, ele percebeu que tanto havia gostado daquela pintura que a queria para si. Pediu-a para a mulher, que como qualquer dos outros que já haviam passado por aquela situação, não soube dizer não. Havia algo nos olhos do artista que não os permitia recusar. O homem emoldurou o retrato e viu sua compradora sorrir. Ela agora sabia que ele cuidaria do desenho melhor do que ela jamais poderia. E como não? Cada peça tinha tanto valor, que se por ela fosse cobrado o real preço, ninguém poderia pagar. Ele amava seu trabalho. Se desse nomes pra cada um dos produtos lembraria de todos os nomes, mesmo já tendo feito mais do que podia contar. Cada um fora perfeitamente planejado, mas a verdade é que gostava mais de uns do que de outros, e estes ele pedia pra si. Desde a feitura já sabia aqueles que eram favoritos, o que é natural de todo criador. Ao contrário daqueles eleitos pelos compradores, seus prediletos não eram os mais bonitos e elaborados, mas os mais simples, os que pareciam ter menos valor. Os dele eram diferentes dos outros e tinham sempre coisas em comum entre si, mas seus admiradores não podiam ver por estarem orgulhosos demais de seus próprios retratos. Não havia importância. Ele sabia que os retratos vendidos em algum momento se perderiam, ou seriam esquecidos. Os dele não. Estariam pra sempre nas mãos de quem sabia o real valor deles.
Postado por
Gelatinei
às
17:58
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